A nova NR-1 não trata de saúde mental, trata de gestão
O custo invisível que há anos reduz produtividade, aumenta turnover e compromete resultados, finalmente entrou na agenda estratégica das empresas.
A atualização da NR-1 trata de saúde mental? Sim.
Mas essa talvez não seja a pergunta mais importante para quem gerencia uma operação.
A pergunta certa é outra:
quanto custa para a sua empresa aquilo que ela ainda não consegue medir?
Nos últimos meses, em diagnósticos realizados em empresas de varejo, temos observado um padrão recorrente: muitas organizações ainda enxergam a NR-1 como uma pauta regulatória, quando, na prática, estão expostas a um risco financeiro que nunca foi devidamente identificado.
Um dos cenários analisados ilustra bem essa realidade.
Em uma rede de supermercados com aproximadamente 180 colaboradores e três lojas, identificamos turnover superior a 45% ao ano, absenteísmo médio de 6% na operação e lideranças sem formação formal em gestão de pessoas.
Nenhum desses indicadores era conhecido pela direção. O que todos sabiam era que “a loja sempre estava com falta de gente”. O que ninguém havia feito era mensurar financeiramente esse problema.
Ao estimarmos os custos de reposição, treinamento e perda de produtividade durante o período de adaptação, verificamos que o turnover representava algo entre R$ 380 mil e R$ 420 mil por ano. O absenteísmo, considerando substituições e horas extras, adicionava aproximadamente R$ 150 mil anuais.
Ou seja, mais de milhão de reais por ano estava escondido dentro de uma explicação frequentemente aceita como natural:
“isso é normal no varejo”.
Mas normal não significa barato.
Esse é justamente o ponto cego que a nova NR-1 está trazendo para a superfície.
Durante décadas, empresas aprenderam a medir com precisão margem, estoque, ruptura e faturamento, mas trataram absenteísmo, turnover, afastamentos e desgaste das lideranças como consequências naturais da operação, e não como indicadores de gestão.
Na prática, os riscos psicossociais raramente surgem de forma isolada. Eles costumam ser consequência de fatores organizacionais como sobrecarga mal distribuída, lideranças despreparadas, comunicação ineficiente e ausência de previsibilidade. Fatores que qualquer gestor reconhece, mas que raramente aparecem em uma planilha.
A pergunta que separa empresas que irão apenas cumprir a norma daquelas que poderão transformar essa mudança em vantagem competitiva é simples:
Quais fatores da minha gestão essa norma está me obrigando a enxergar?
Para iniciar essa reflexão, vale fazer um teste rápido:
você conhece a taxa de turnover por loja ou unidade e sabe qual é o seu custo real?
O absenteísmo é acompanhado apenas como indicador operacional ou também como sintoma organizacional?
Suas lideranças receberam preparação formal para gestão de pessoas ou aprenderam exclusivamente pela experiência?
Existe algum indicador que conecte comportamento humano e resultado financeiro?
Se a resposta para a maioria dessas perguntas for negativa, é provável que os custos já estejam presentes na operação.
A diferença é que, até agora, eles ainda não foram nomeados ou tratados como indicadores de gestão.
Talvez a principal contribuição da nova NR-1 não seja criar uma nova obrigação.
Talvez seja lembrar às organizações que o custo mais alto de uma empresa quase nunca aparece primeiro no balanço financeiro. Ele aparece, antes, no comportamento das pessoas e na forma como a gestão é exercida.
ROGÉRIO MACHADO
consultor empresarial especialista em gestão e varejo, palestrante e mentor
NATÁLIA MACHADO
consultora e especialista em transformação organizacional,
estratégia de pessoas e performance
