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Quando o mundo muda, a gôndola sente

Existem acontecimentos que parecem distantes da rotina de um supermercado até começarem a aparecer no preço do combustível, no prazo de uma entrega, no custo de um produto ou nas escolhas do consumidor. Outubro chega em um desses momentos. Enquanto o Brasil se prepara para decidir seus próximos caminhos nas urnas, conflitos internacionais seguem pressionando mercados e algumas das principais rotas do comércio mundial. Para o varejo, acompanhar esses movimentos deixou de ser apenas uma questão de informação. Tornou-se parte da gestão.

As Eleições Federais de 2026 tiveram primeiro turno no dia 4 de outubro e, onde houver necessidade, segundo turno no dia 25. Naturalmente, períodos eleitorais ampliam a atenção de empresas e consumidores sobre os rumos da economia, das políticas públicas e do ambiente de negócios. Independentemente dos resultados, o papel do varejo deve permanecer o mesmo: observar o cenário com responsabilidade, evitar decisões precipitadas e manter a operação preparada para diferentes movimentos do mercado.

Ao mesmo tempo, o ambiente externo adiciona outra camada de atenção. Nas últimas semanas, a escalada dos conflitos no Oriente Médio voltou a pressionar o mercado de petróleo e aumentou a preocupação com importantes corredores marítimos. O Brent ultrapassou novamente a marca de US$ 100 por barril, enquanto ataques a embarcações, instalações de energia e rotas próximas ao Estreito de Ormuz e ao Mar Vermelho elevaram custos e incertezas para o transporte internacional. Ainda que algumas companhias estejam retomando serviços pelo Canal de Suez, a estabilidade dessas operações continua diretamente ligada às condições de segurança da região.

Para quem está do outro lado do oceano, tudo isso pode parecer distante. Para quem trabalha com varejo, sabemos que não é. Energia e logística atravessam praticamente toda a nossa operação. Estão no transporte que leva mercadorias aos centros de distribuição, na movimentação entre fornecedores e lojas e nos custos incorporados aos produtos que chegam às gôndolas. Quando uma rota precisa ser alterada, o petróleo sobe ou uma cadeia de fornecimento perde previsibilidade, o impacto pode percorrer milhares de quilômetros até chegar ao consumidor.

É justamente em momentos como esse que planejamento ganha ainda mais importância. Preparação não significa antecipar uma crise ou abastecer estoques de forma indiscriminada. Significa acompanhar indicadores, conversar com fornecedores, avaliar alternativas logísticas, revisar categorias mais expostas às oscilações internacionais e entender onde existem riscos reais para margem e disponibilidade. Quanto maior a incerteza, maior deve ser a qualidade da informação que orienta nossas decisões.

E existe um dado importante nesse cenário. Segundo a Abras, o Consumo nos Lares Brasileiros acumulou crescimento real de 2,67% entre janeiro e julho de 2026, praticamente repetindo o ritmo observado no mesmo período do ano anterior. Em julho, houve avanço de 3,28% na comparação com o mesmo mês de 2025. Os números demonstram que, apesar das pressões e das incertezas, as famílias continuam consumindo e o setor mantém sua capacidade de avançar.

Isso não significa, contudo, que o consumidor esteja indiferente ao cenário. Em períodos de maior insegurança, escolhas tendem a ser mais observadas, comparações ganham importância e a percepção de valor pesa ainda mais sobre a decisão de compra. Para o supermercado, eficiência operacional e sensibilidade comercial precisam caminhar juntas. É necessário proteger margens sem perder competitividade, ajustar estoques sem comprometer disponibilidade e buscar produtividade sem transferir toda pressão da operação para quem está diante da gôndola.

Para nós, supermercadistas baianos, essa capacidade de adaptação sempre fez parte da nossa história. Trabalhamos em um setor que convive diariamente com mudanças de preço, sazonalidade, logística, comportamento e abastecimento. Talvez por isso tenhamos aprendido que resiliência não é simplesmente suportar períodos difíceis. É criar condições para responder melhor quando o cenário muda.

Outubro será um mês de decisões importantes dentro e fora do Brasil. Não controlamos o resultado das urnas, os movimentos dos conflitos internacionais ou as rotas pelas quais circulam petróleo e mercadorias. Mas podemos controlar a maneira como nossas empresas observam, planejam e reagem a essas transformações.

Que saibamos atravessar esse período com atenção, equilíbrio e responsabilidade. Porque, quando o mundo muda, a gôndola sente. E o varejo que melhor enfrenta a incerteza não é aquele que tenta prever tudo, mas aquele que está preparado para decidir bem diante do que vier.

AMANDA VASCONCELOS

Presidente da Abase

presidencia@abase-ba.org.br