Caminhos práticos para aumentar a produtividade com a possível aprovação da Escala 5×2
A Super Revista entrevistou Reginaldo Costa, consultor do setor supermercadista e de outros segmentos empresariais, para falar sobre um dos temas mais debatidos do momento: a possível aprovação da jornada de trabalho 5×2, que pode substituir o modelo 6×1 atualmente vigente.
A proposta, que tramita no Congresso Nacional, prevê mudanças graduais na jornada semanal e tem gerado preocupação, especialmente no varejo alimentar. Reginaldo realizou um estudo específico sobre os impactos da nova escala no setor supermercadista e aponta caminhos práticos para adaptação, com foco em produtividade, gestão e retenção de talentos.
Benneh Amorin – Qual a sua avaliação sobre a tramitação do projeto que institui a escala 5×2?
Reginaldo Costa – É um prazer estar com a Super Revista, sempre apoiando o setor e incentivando o diálogo. Por ser um ano eleitoral, é difícil imaginar que uma proposta com forte apelo popular, como a redução da jornada de trabalho, não avance. Existe pressão da sociedade, dos parlamentares e sinais claros de apoio do próprio governo para que esse projeto seja aprovado.
BA – O que exatamente muda com esse projeto?
RC – A proposta prevê uma redução gradual da jornada semanal, saindo das atuais 44 horas para 40 horas até 2028. A principal mudança é a adoção do modelo de cinco dias trabalhados e dois de descanso. Hoje, o setor supermercadista já enfrenta dificuldades para contratar profissionais para a escala 6×1, especialmente operadores de caixa, repositores e conferentes. Além disso, há um problema sério de turnover, que eleva custos, desorganiza processos e prejudica a produtividade.
BA – O custo é a principal preocupação dos supermercadistas?
RC – Sem dúvida. Os maiores receios são a manutenção dos salários e a necessidade de contratar mais pessoas. A pergunta que ainda não tem resposta é: quem vai absorver esse custo? O consumidor, a empresa ou o governo, por meio de desoneração da folha? Essa definição será crucial para o sucesso da implantação.
BA – Algumas redes já estão se antecipando a essa mudança?
RC – Sim. Redes como Savegnago e Compre Bem já iniciaram projetos-piloto em algumas unidades, com resultados positivos. São empresas líderes, que sentem tanto a pressão social quanto a dificuldade real de contratação. Elas entenderam que não dá para esperar apenas a obrigatoriedade legal. Essa realidade também chega à Bahia, onde já vemos redes tendo dificuldade extrema para preencher vagas.
BA – No seu estudo, o senhor cita o modelo horista como alternativa. Como funcionaria?
RC – O modelo horista daria mais liberdade para que o trabalhador escolhesse quantas horas e quais dias deseja trabalhar, sendo remunerado proporcionalmente. Seria uma negociação mais direta entre empregador e empregado, com menos interferência do governo. Não é uma proposta em votação, mas, para o setor supermercadista, seria um modelo muito eficiente. Cada empresa e cada setor têm realidades diferentes, e uma regra única nem sempre é justa.
BA – Como encontrar o ponto de equilíbrio na transição para o 5×2?
RC – O caminho é produtividade. O supermercado tem muitos processos e grande potencial de melhoria operacional. É preciso entender os horários de pico, os dias de maior venda, quando a equipe completa é necessária e quando não é. Avaliar desempenho por setor e por colaborador é fundamental. Um funcionário mais descansado produz mais, atende melhor e gera melhores resultados.
BA – A escala 5×2 pode ajudar a reduzir o turnover?
RC – Com certeza. Pessoas mais satisfeitas geram um clima organizacional melhor. Hoje, vemos um cenário preocupante: quem está dentro quer sair, e quem está fora não quer entrar. A melhoria na qualidade de vida muda completamente essa lógica.
BA – O setor ainda oferece oportunidades de crescimento profissional?
RC – Precisa oferecer mais. No passado, o supermercado era uma escola de formação profissional. Muitos começaram como estoquistas ou repositores e chegaram à gerência. Isso ainda é possível, mas exige organização, definição de processos, metas claras e gestão profissional. Não se faz gestão sem estrutura.
BA – E para os pequenos supermercados, o impacto é maior?
RC – As pequenas empresas têm um papel fundamental, principalmente no primeiro emprego. Elas oferecem aprendizado prático em várias áreas e movimentam a economia local. Com boa gestão, também podem se beneficiar da escala 5×2, desde que façam planejamento e uso inteligente da mão de obra.
BA – Como funcionaria a chamada matriz de cobertura semanal?
RC – É essencial mapear horários e setores. Por exemplo: frente de caixa demanda até 40% da equipe; açougue e padaria, até 30%; hortifruti, 20% a 25%. Também é possível dividir a equipe em grupos com dias alternados de folga, garantindo cobertura total da loja e equilíbrio para os colaboradores. Além disso, a equipe deve variar conforme o horário: menor contingente pela manhã e maior no fim da tarde e início da noite.
BA – Quais ferramentas de gestão são indispensáveis?
RC – Sistemas de WFM (Workforce Management) ajudam a planejar escalas de forma inteligente. Além disso, comunicação eficiente, gestão à vista com indicadores, ponto eletrônico e planejamento prévio são essenciais. Tecnologia não é custo, é investimento.
BA – Incentivos e participação nos resultados ajudam a reter talentos?
RC – Sem dúvida. O supermercado precisa se enxergar como uma empresa de vendas. Premiar desempenho, crescimento de faturamento e melhoria de margem gera engajamento. Não é cultural no setor, mas é extremamente necessário.
BA – Quais são as conclusões do seu estudo?
RC – A escala 5×2 pode ser um investimento estratégico. Ela melhora a produtividade, reduz o turnover e ajuda a reter talentos. O grande desafio é o custo, já que o varejo alimentar trabalha com margens muito apertadas — em média, abaixo de 3%. Sem desoneração da folha, o risco é aumento de preços e pressão inflacionária. É preciso diálogo e responsabilidade para que a mudança seja sustentável.
BA – Onde os supermercadistas podem buscar mais informações?
RC – Acompanhar os canais da Abras, da Super Revista e os fóruns do setor. O guia que desenvolvemos será disponibilizado nacionalmente. Em 2026, esse tema será central e os empresários precisam se preparar desde já.
