Escala 5×2 pode se tornar solução estratégica para o Setor Supermercadista em 2026, afirma Reginaldo Costa
A possível aprovação da escala de trabalho 5×2, que deve substituir o modelo 6×1 atualmente adotado no Brasil, tem provocado intensos debates no setor supermercadista. A proposta, que tramita no Congresso Nacional, do Projeto de Lei nº 67/2025, prevê a redução gradual da jornada semanal, saindo das atuais 44 horas para 40 horas até 2028. Embora o tema gere preocupação, principalmente em relação aos custos, especialistas apontam que a mudança pode representar uma oportunidade de modernização e ganho de produtividade.
Para o consultor supermercadista Reginaldo Costa, a tendência de aprovação é forte, especialmente por se tratar de um ano eleitoral. “É uma proposta com grande apelo popular, há pressão da sociedade, dos parlamentares e sinais claros de apoio do governo. Dificilmente algo assim não avançará”, avalia.
Segundo ele, o setor já enfrenta dificuldades estruturais que tornam o debate inevitável. A escassez de mão de obra para a escala 6×1 é uma realidade em todo o país, afetando cargos como operadores de caixa, repositores e conferentes. Soma-se a isso o alto índice de turnover, que gera aumento de custos, perda de produtividade, necessidade constante de treinamento e impacto direto na experiência do cliente.
“Não é apenas uma questão legal, é um problema interno do setor. As empresas precisam se perguntar por que as pessoas não querem mais trabalhar nesse modelo”, destaca.
Custo preocupa, mas produtividade é o caminho
O maior temor dos supermercadistas está no impacto financeiro da mudança. A manutenção dos salários, aliada à possível necessidade de contratar mais colaboradores, levanta uma questão ainda sem resposta: quem irá absorver esse custo? O consumidor, as empresas ou o governo, por meio de desoneração da folha de pagamento?
Reginaldo alerta que o varejo alimentar já opera com margens extremamente apertadas. Dados do setor apontam que supermercados médios e grandes trabalham com margens em torno de 2,3% a 2,9%, enquanto os pequenos variam entre 4% e 7%. “Não há espaço para absorver um aumento médio de 20% na folha sem contrapartidas”, afirma.
Diante desse cenário, o consultor defende que o caminho mais viável é o aumento da produtividade. “O supermercado é uma empresa plural, com muitos processos e grande potencial de eficiência. É possível reorganizar escalas, horários e equipes de forma mais inteligente”, explica.
Projetos-piloto e antecipação ao cenário legal
Algumas redes já começaram a se antecipar. Supermercados como Savegnago e Compre Bem implantaram projetos-piloto em unidades específicas, testando a escala 5×2 com resultados positivos. Para Reginaldo, a iniciativa é estratégica. “São empresas líderes que entenderam que não dá para esperar apenas a obrigação legal. Elas enfrentam dificuldade de contratação e também sentem a pressão social por mais qualidade de vida”, analisa.
A realidade, segundo ele, não se limita aos grandes centros. Em várias regiões do país, inclusive na Bahia, já há relatos de redes utilizando ações inusitadas para tentar contratar funcionários, evidenciando o tamanho do desafio.
Organização, tecnologia e gestão profissional
No estudo elaborado por Reginaldo Costa, um dos pontos centrais é a necessidade de profissionalizar a gestão. A implantação da escala 5×2 exige diagnóstico operacional, análise do fluxo de clientes, identificação de horários de pico, avaliação de desempenho por setor e planejamento detalhado das escalas.
Ele sugere a adoção de uma matriz de cobertura semanal, com divisão equilibrada da equipe por setores e horários. Frente de caixa, por exemplo, pode concentrar até 40% do efetivo, enquanto açougue e padaria demandam de 25% a 30%. A equipe também deve variar ao longo do dia, com menor contingente pela manhã e reforço no fim da tarde e início da noite.
O uso de tecnologia é outro ponto-chave. Sistemas de Workforce Management (WFM), aliados a dashboards de desempenho, ponto eletrônico e canais eficientes de comunicação, ajudam a transformar decisões baseadas em “feeling” em gestão orientada por dados.
“Não dá mais para administrar escalas e produtividade no achismo. É preciso planejar, medir, corrigir e evoluir”, reforça.
Retenção de talentos e mudança cultural
Além da produtividade, a escala 5×2 pode contribuir para a retenção de talentos e a melhoria do clima organizacional. Reginaldo lembra que o alto turnover prejudica não apenas a operação, mas também o relacionamento com os clientes. “O cliente perde a referência, o vínculo com a loja. O supermercado deixa de ser um comércio de bairro e passa a ser um lugar de estranhos”, afirma.
Ele também defende uma mudança cultural no setor: enxergar o supermercado como uma empresa de vendas. Para isso, políticas de incentivo, premiação por desempenho e até participação nos resultados podem aumentar o engajamento das equipes. “Não é cultural, mas é necessário. Pessoas motivadas vendem mais, atendem melhor e geram mais resultado”, diz.
Um desafio que pode virar oportunidade
Para o consultor, a escala 5×2 não deve ser vista apenas como um problema imposto pela legislação, mas como uma oportunidade de transformação. “Com planejamento, tecnologia, diálogo e foco em produtividade, é possível não só absorver os custos, mas melhorar resultados”, afirma.
Ele ressalta, no entanto, que o sucesso da medida dependerá de um amplo diálogo entre governo, empresas e sociedade. “Nem o consumidor pode pagar mais caro, nem o empresário tem margem para absorver tudo sozinho. A desoneração da folha será fundamental.”
Enquanto o projeto avança no Congresso, Reginaldo recomenda que os supermercadistas acompanhem os debates por meio de entidades como a Abras e veículos especializados, como a Super Revista, e iniciem desde já estudos e projetos-piloto. “A mudança é praticamente certa. Quem se preparar antes, vai sair na frente.”
