NR-1 amplia importância da prevenção aos transtornos mentais no trabalho
A médica Márcia Meireles, especialista em Dermatologia e Clínica Médica, concedeu entrevista à Super Revista e ao Programa Fala Benneh, na qual falou sobre a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que ampli-a a atenção à saúde mental no ambiente de trabalho, além de abordar projetos voltados ao atendimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Segundo a médica, a NR-1 representa um avanço importante ao estabelecer diretrizes que buscam prevenir o adoecimento mental dos trabalhadores. “É como se fosse um dispositivo que estabelece normas de segurança para o trabalhador. A partir da atualização da norma, todo trabalhador passa a ter direito a um acompanhamento psicossocial dentro da empresa para evitar o desenvolvimento de transtornos mentais”, explicou.
Ela destacou que jornadas excessivas, metas consideradas abusivas e cargas horárias prolongadas estão entre os principais fatores que contribuem para o surgimento de problemas como ansiedade, depressão e síndrome de burnout. “A gente observa muitos profissionais desenvolvendo burnout em função da sobrecarga de trabalho. Na área médica isso é muito comum, principalmente em jornadas muito extensas”, afirmou.
De acordo com Márcia Meireles, a adequação das empresas às novas exigências não é opcional. “A fiscalização vai acontecer e o objetivo é justamente evitar jornadas excessivas, metas abusivas e situações de assédio moral ou sexual que acabam adoecendo o trabalhador”, disse.
Ela lembrou que, em empresas com mais de 90 funcionários, a presença de um médico do trabalho é obrigatória e cabe a esse profissional encaminhar colaboradores que apresentem sinais de sofrimento emocional para atendimento psicológico. “A empresa deve encaminhar esse funcionário para avaliação psicológica e, quando necessário, promover sua readaptação. Ele não pode retornar para o mesmo ambiente que contribuiu para o seu adoecimento emocional”, ressaltou.
A médica reconhece que algumas organizações já adotam medidas preventivas, mas acredita que boa parte do mercado ainda precisa evoluir. “Algumas empresas já demonstram preocupação com a saúde emocional dos colaboradores, mas muitas ainda terão que se adequar para evitar sanções e multas.”
Márcia informou que vem realizando palestras em diversas instituições para esclarecer as mudanças trazidas pela NR-1 e orientar gestores sobre a necessidade de adequação. Segundo ela, o prazo para adaptação das empresas é limitado e, após esse período, poderão ocorrer fiscalizações e aplicação de penalidades para quem descumprir as normas.
Para a médica, trata-se de um avanço importante. “O emprego não deve ser um ambiente de adoecimento. O trabalhador precisa exercer suas funções com qualidade de vida, respeito e equilíbrio emocional.”
Atendimento ao autismo
A doutora Márcia Meireles também falou sobre sua atuação junto a famílias de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ela afirmou que, ao longo de duas décadas de atuação médica, acompanha de perto as dificuldades enfrentadas por pais e responsáveis, especialmente pela dificuldade de acesso a diagnósticos e tratamentos especializados.
Segundo a especialista, muitas crianças permanecem meses ou até anos sem diagnóstico adequado, enquanto as famílias enfrentam altos custos com terapias multidisciplinares, medicamentos e acompanhamento especializado. “A criança com autismo precisa de uma equipe multiprofissional. Não basta apenas um psicólogo ou um fonoaudiólogo. Muitas vezes é necessário neuropediatra, terapeuta ocupacional, entre outros profissionais”, ponderou.
Ela também chamou atenção para o impacto emocional sobre as mães. “Quando a criança adoece, toda a família é afetada. Muitas mães desenvolvem ansiedade, depressão e precisam igualmente de apoio psicológico”.
Propostas apresentadas como pré-candidata
Márcia Meireles, que se apresentou como pré-candidata a deputada federal pelo Partido Republicanos, afirmou que pretende defender políticas públicas voltadas ao atendimento de crianças com TEA caso seja eleita.
Entre as propostas apresentadas está a criação do Projeto Mãe Azul, que, segundo ela, prevê a implantação de um grande centro especializado para atendimento de crianças autistas na Bahia.
De acordo com a médica, o projeto pretende reunir atendimento multidisciplinar, terapias, medicina integrativa, atividades físicas, equoterapia e estrutura para acolhimento de mães vindas do interior do estado.
Ela afirmou ainda que pretende defender políticas de apoio financeiro às famílias, argumentando que muitas mães deixam o mercado de trabalho para dedicar-se integralmente aos cuidados dos filhos. Segundo Márcia, o objetivo é oferecer melhores condições de tratamento e ampliar a inclusão social das crianças com TEA.
Outro ponto abordado foi a inclusão escolar. Na avaliação da médica, embora exista previsão legal para inclusão de alunos com autismo na rede regular de ensino, ainda faltam profissionais preparados para atender às necessidades específicas dessas crianças. Ela defende maior capacitação de professores e investimentos em políticas públicas que fortaleçam tanto o atendimento educacional quanto o suporte às famílias.
Medicina integrativa
Ao comentar experiências realizadas em outros estados, Márcia citou pesquisas envolvendo medicina integrativa e novos recursos terapêuticos utilizados em crianças com TEA.
Segundo ela, seu projeto prevê estudar a adoção dessas estratégias em um futuro centro especializado na Bahia, com a expectativa de ampliar as possibilidades terapêuticas oferecidas às famílias.
“Nosso objetivo é criar um projeto piloto na Bahia que possa futuramente servir de referência para outros estados brasileiros”, concluiu.
