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Trajetória que vivenciou as transformações do varejo

Com uma carreira construída no chão de loja, William Brito é um retrato fiel da transformação vivida pelo varejo brasileiro nas últimas duas décadas. Natural de Vitória da Conquista, ele iniciou sua jornada em 2009 como repositor no Atacadão e, ao longo dos anos, alcançou cargos de liderança, chegando à posição de diretor executivo após passagens por algumas das maiores redes do país.

Na sua trajetória, Brito acumulou experiências em gigantes como Assaí Atacadista e Grupo Mateus, além de operações regionais relevantes como Atakarejo e DMA Distribuidora. Para ele, mais do que crescimento profissional, o percurso representa impacto direto na economia e na vida de milhares de pessoas. “Quando olho para tudo isso, vejo o quanto contribuímos gerando riqueza, desenvolvendo regiões e criando relações. Isso é o que mais me marca”, afirma.

A vivência prática permite a Brito dimensionar o salto vivido pelo setor, sobretudo na Bahia. Ele cita números que ilustram essa evolução: o Atakarejo, que tinha sete lojas em 2016, hoje ultrapassa 50 unidades entre Bahia e Sergipe; o Grupo Mateus, que não possuía operação na Bahia em 2021, já soma dezenas de lojas no estado; o Assaí Atacadista saiu de 8 unidades no estado para cerca de 30; e o Atacadão, que tinha cerca de 15 lojas no início de sua carreira, hoje se aproxima de 40 apenas na Bahia.

Esse crescimento, segundo ele, elevou o nível de concorrência a patamares inéditos. “A Bahia hoje é, na minha visão, o estado mais competitivo do Nordeste. Nenhum outro se compara ao nível de disputa que existe aqui”, destaca, citando também capitais como Salvador como epicentro dessa transformação.

Cenário desafiador

Apesar da expansão, o momento atual exige cautela e estratégia. Brito aponta uma combinação de fatores que vêm pressionando o setor: queda de consumo em algumas categorias; mudanças no comportamento do cliente; dificuldade de contratação e retenção de mão de obra; margens mais apertadas; e os impactos externos no orçamento das famílias.

Ele menciona, por exemplo, discussões levantadas por Belmiro Gomes, CEO do Assaí, sobre como novos hábitos de consumo — incluindo gastos com apostas e até o uso de medicamentos que reduzem o apetite — podem afetar diretamente o desempenho de categorias tradicionais. “Tem redes que registram queda de até 30% no consumo de arroz, enquanto outras categorias, como proteínas, crescem dois dígitos. É um mercado em transformação constante”, explica.

Para Brito, o sucesso no varejo atual passa por entender profundamente o consumidor, especialmente em um estado diverso como a Bahia. “O que se vende em Salvador é completamente diferente do que se vende em Juazeiro, Teixeira de Freitas ou na própria Vitória da Conquista”, afirma.

Essa necessidade de adaptação abre espaço para diferentes formatos de loja e estratégias, desde grandes atacarejos até unidades de vizinhança, mais compactas e próximas do consumidor.

Outro ponto de atenção é o crescimento do digital. Embora ainda em expansão no Nordeste, o e-commerce já altera hábitos de consumo de forma significativa. “Hoje, com poucos cliques, você resolve sua compra sem sair de casa. A pergunta é: até onde o varejo tradicional está preparado para isso?” questiona.

Além disso, Brito observa o fortalecimento de lojas menores e mais eficientes, com soluções como self-checkout e operações enxutas — uma resposta direta à escassez de mão de obra e à necessidade de reduzir custos. Redes como Hiperideal, RedeMix e Novo Mix são exemplos desse movimento em Salvador, ampliando presença e se aproximando cada vez mais do consumidor final.

O interior da Bahia também ganha protagonismo. Brito destaca a expansão de redes como o Economart, que vem crescendo com operações em cidades estratégicas e planos de expansão para novos mercados. “São lojas bem operadas, com foco em qualidade, bom atendimento e eficiência. É um player que merece atenção e que certamente vai impactar ainda mais o varejo baiano”, analisa.

Diante desse cenário, Brito é direto: o varejo seguirá sendo promissor, mas apenas para quem estiver preparado. “Vai se destacar quem tiver estratégia clara, operação eficiente e capacidade de entender pessoas — tanto clientes quanto equipes”, resume.