Homenagem ao Comendador Mamede Paes Mendonça pelos 110 anos de nascimento
A finalidade desta matéria é homenagear o falecido empresário Mamede Paes Mendonça, que se vivo fosse teria completado 110 anos no último dia 5 de agosto. Um dos maiores expoentes do setor supermercadista brasileiro, foi fundador da Rede de Supermercados Paes Mendonça, fato que ocorreu no ano de 1959, com a abertura da primeira unidade da rede, especificamente na Rua Jogo do Carneiro, entre os bairros de Nazaré e Saúde.
Aqui nesta matéria vou tratá-lo como comendador, título que ganhou do Governo Português, pelos relevantes serviços prestados ao País, através da importação dos produtos portugueses para o Brasil. Essa deferência, ocorreu em cerimônia solene ocorrida no salão nobre do Gabinete Português de Leitura, em Salvador, sendo a honraria entregue ao novo comendador.
Aproveito também aqui para prestar essa homenagem do recente lançamento do livro “Mamede Paes Mendonça – O Rei dos Supermercados”, de autoria de minhas colegas jornalistas, Ivana Braga e Heliana Frazão, da Coleção Gente da Bahia, editada pela Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, que teve a iniciativa do assessor-chefe da Alba, jornalista Paulo Bina, que é o editor da obra.
Como tive a honra de trabalhar na Rede de Supermercados Paes Mendonça, de novembro de 1974 a abril de 1987, convivi com cinco dos seus diretores, primeiro com o filho Jaime Andrade Paes Mendonça, subordinado ao Departamento de Abastecimento, na área do estoque, e, posteriormente, com o próprio fundador da rede, Seo Mamede Paes Mendonça, com seu outro filho José Augusto Andrade Mendonça, com Seu Manuel Andrade, vice-presidente, e Seu Pedro Oliveira, na matriz do grupo, já na função de Jornalista, a partir de 1980, quando alcancei o grau de bacharel em Comunicação e Jornalismo, pela Universidade Federal da Bahia. Na Assessoria de Imprensa do Grupo, passei sete anos, quando pedi desligamento para trabalhar como repórter na imprensa diária.
Nascimento de Mamede Paes Mendonça
Nascido no dia 5 de agosto de 1915, no então distrito de Serra do Machado, na época pertencente ao município sergipano de Ribeirópolis, emancipado com este nome em 18 de dezembro de 1933, pelo Decreto Estadual, nº 188. Antes era denominado pelo nome de Saco do Ribeiro, herdado de um cigano alagoano, chamado Ribeiro, que por lá apareceu e viveu por muitos anos portando um saco, cujo conteúdo era um mistério para a população. O certo é que não se sabe a origem e data exatas do aparecimento deste personagem que deu o nome ao local.
Mamede Paes Mendonça – O Rei dos Supermercados, como diz o título da publicação, depois de vitoriosa carreira empresarial, faleceu aos 80 anos de idade, no dia 21 de outubro, vítima de câncer de pulmão, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, após um curto período de internação, 15 dias. Antes, ele estava internado no Rio de Janeiro e depois foi transferido para São Paulo.
O seu sepultamento, ocorreu dois dias depois, dia 23, em Salvador, no Cemitério do Campo Santo, no mausoléu da família. O grande fluxo de pessoas que foi dar o último adeus àquele que fez o nome Paes Mendonça ser sinônimo de Supermercados, na Bahia e em Sergipe, travou o trânsito nas imediações do cemitério: ex-colaboradores do grupo, autoridades, familiares e admiradores, comprovando que ele era um ser benquisto pela população baiana, especificamente de Salvador.
O início foi em Ribeirópolis
Mas, voltando a Ribeirópolis, onde ele começou a sua vida de empreendedor formal, aos 21 anos. As primeiras referências sobre a região, entretanto, de acordo com a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros datam de 1637, época em que os povoados na região começaram a ser formados, provavelmente por holandeses. O desenvolvimento de Saco do Ribeiro começou no início do Século 20, com a realização da feira livre. Em 1915, ano do nascimento do menino Mamede Paes Mendonça, a feira foi transferida para a Praça da Bandeira, onde, aliás, acontece até os dias de hoje.
Toda essa introdução é para situar que foi nesta praça que Mamede Paes Mendonça, juntamente com os irmãos, no fim da infância e início da adolescência começou a vender os seus produtos na feira, trazidos do distante povoado de Serra do Machado, cerca de 20 km, onde os pais, os agricultores Eliziário da Costa Menezes e Maria da Conceição de Jesus possuíam a sua propriedade agrícola que servia para tirar o sustento da família com a produção de mandioca e outros itens de subsistências e criação de animais.
Descendência europeia
Da união do casal Eliziário e Maria nasceram 12 filhos, entre eles Pedro Paes Mendonça, o primeiro; Mamede Paes Mendonça, o quinto e Euclides Paes Mendonça, o sexto. Esses são os três que ganharam mais projeção no ramo comercial, e Pedro e Euclides, também na política. Aurelino e José Paes Mendonça eram outros filhos do casal.
As mulheres foram quatro, Maria, mãe de Pedro Oliveira, Lourdes, na realidade Maria, esposa de Seu Manoel Andrade; Maria Odilia, mãe de João Gualberto, e Josefa. As origens do casal são provenientes da Europa, ele de ascendência portuguesa e ela de ascendência holandesa. Talvez, essas origens expliquem o sucesso dos seus descendentes na área do comércio.
Pelos nomes dos pais, como justificar o nome Paes Mendonça, nos seus descendentes. De acordo com a empresária Alda Mendonça, filha de Dona Maria da Costa Andrade, mais conhecida como Dona Lourdes, filha também do casal Eliziário e Maria da Conceição, portanto, irmã de Mamede, o nome Paes Mendonça, só foi dado para os homens da família, a começar por Pedro, o primogênito. Segundo ela, esse sobrenome foi resgatado de antepassados de D. Maria da Conceição. No caso dos descendentes de Mamede, eles foram batizados sem o Paes, sendo Andrade Mendonça, que seria Andrade da mãe D. Lindaura e Mendonça do pai, Mamede. Anos depois, o caçula Jaime Andrade Mendonça solicitou à justiça e acrescentou o Paes, no seu nome, tornando-se Jaime Andrade Paes Mendonça.
Origens da família Paes Mendonça
O casal Eliziário e Maria da Conceição, após se casar no início do Século XX, e iniciar a sua prole, tendo como primogênito Pedro, nascido em 1909, seguindo de mais 11, no qual Mamede Paes Mendonça era o quinto, com certeza, no futuro, poderia se orgulhar dos filhos. Todos venceram na vida e conquistaram, muito mais do que almejavam, quando iam para a Feira de Ribeirópolis vender a farinha de mandioca produzida na fazenda dos pais, em Serra do Machado. Todos os homens se dedicaram ao comércio, cujos primeiros passos da aprendizagem ocorreram na Feira de Ribeirópolis, ainda chamada Saco do Ribeiro.
Como pelas circunstâncias de dar duro, durante o dia, na lavoura da família, onde começou com apenas 7 anos de idade, eles e os irmãos só conseguiram frequentar a escola por pouco tempo, pois o pai Eliziário, pela pobreza e falta de conhecimento acreditava que trabalhar na roça, para tirar o sustento da numerosa família de 12 filhos, era melhor do que frequentar a escola, no período da tarde. Aliás, a escola ficava distante 6 quilômetros, no povoado de Moita Bonita, o que era um martírio, pois os 12 km, de ida e volta, era feito a pé. Algumas vezes pedia ao pai que liberasse um cavalo para aliviar a caminhada, a resposta, invariavelmente era não. O velho Eliziário, na sua concepção dizia: “Cavalo é para o trabalho e não para a escola”.
Neste ambiente de pouco estímulo, ele conseguiu estudar até o terceiro ano primário. Entretanto, conta o filho José Augusto Andrade Mendonça, o quarto dos seis que Seo Mamede teve com D. Lindaura, e até hoje toca os negócios da família, seu pai, na realidade, em função da quebra de um braço e já que não podia trabalhar na lavoura, o pai determinou que ele frequentasse a escola, que segundo José Augusto, foi um período de 10 meses. Mesmo assim, em função desse episódio, segundo os filhos José Augusto e Lourdes, foi dos irmãos que mais estudou.
O que fazia Mamede feliz era cuidar da lavoura. Plantar mandioca, vê-la crescer, depois arrancá-la do solo, colocá-la em um tacho enorme para torrar, transformando-a em farinha, ensacando e vendê-la na feira, contar o dinheiro e colocá-lo no bolso, para depois comprar as mercadorias que tinha que trazer, junto com os irmãos, para casa e prestar conta aos pais.
Mamede sempre pensava para a frente. Depois de seis anos indo para a feira com os irmãos, com o dinheiro que conseguiu juntar, também com a venda de jaboticabas, 1.500 contos de réis, moeda que circulava no Brasil na época, que colocava embaixo do colchão. Euclides, um ano mais novo, também comungava do mesmo objetivo: prosperar e buscar novos horizontes, também havia conseguido poupar 1.200 contos de réis. Com a soma das duas quantias, 2.700 contos de réis, os dois rumaram para Ribeirópolis já com a ideia fixa de montar uma padaria. O ano era 1936 e o negócio prosperou. O trabalho era árduo e duro, começava de madrugada, pois 6 horas o pão tinha que estar pronto para atender a freguesia. Na padaria eles comercializavam também outros produtos, massas finas, biscoitos e gêneros alimentícios.
Jornada em Ribeirópolis
A jornada em Ribeirópolis durou até 1942, quando já vislumbrava novos desafios. Neste interim, aos 23 anos, ainda em Ribeirópolis, casou-se com a prima Lindaura Andrade Mendonça, em 1938. Um ano depois nasceu o primeiro filho batizado de José, que foi seguido por João e Maria de Lourdes. Os três nasceram em Ribeirópolis. Os três seguintes foram José Augusto, Maria Angélica, que nasceram em Itabaiana, e Jaime, esse nascido em Salvador, em 1951. Lindaura era irmã de Antônio e Monoel Andrade Mendonça, que viriam, no futuro, serem sócios do seu marido.
Após sucesso absoluto em Ribeirópolis, os irmãos Mamede, com 27 anos, e Euclides, com 26, estabeleceram nova meta: conquistar Itabaiana, cidade grande e próspera. E em 1942, foram para um novo desafio. Com os frutos da prosperidade obtida em Ribeirópolis, os dois compraram um terreno em Itabaiana e montaram um negócio de secos e molhados, já com o nome Irmãos Paes Mendonça. Eles, entretanto, não desfizeram do negócio em Ribeirópolis, deixando na mão do cunhado, Antônio Andrade.
Chegada a Itabaiana
Como era previsível, devido a força empreendedora de Mamede, Itabaiana ficou pequena para seu projeto de crescimento. E lá foi ele conquistar Aracaju, a capital do Estado. Euclides, já com ambições políticas, resolveu ficar em Itabaiana, onde viria a se tornar prefeito e posteriormente deputado estadual e deputado federal. O seu fim foi trágico, o que deixou Mamede bastante abalado. Em 1963, Euclides, então deputado federal, devido a disputas políticas, foi assassinado em 8 de agosto de 1963, ao lado do seu filho Antônio Paes Mendonça, então deputado estadual.
Em Aracaju, Mamede chegou em 1947. O negócio de Ribeirópolis foi vendido para o irmão mais velho, Pedro Paes Mendonça, que por lá se estabeleceu, depois, também de ter iniciado sua vida de comerciante com uma padaria em Serra do Machado. Ele também entrou na política, se tornando deputado estadual. E nesta condição lutou pela emancipação de Moita Bonita, que aconteceu em 1963. Concorreu ao pleito eleitoral e se tornou o primeiro prefeito da Moita Bonita.
A luta de Pedro Paes Mendonça pela emancipação de Moita Bonita colocou o seu irmão Euclides em lado oposto, já que era contra a elevação do povoado em município. Pedro Paes Mendonça, tempos depois deixou a política e com o filho primogênito, João Carlos Paes Mendonça, seguiu para Recife, Pernambuco, onde fundou a Rede Bompreço de Supermercados.
Portanto, os irmãos Paes Mendonça, se tornaram baluartes no ramo supermercadista. O jovem João Carlos Paes Mendonça, que ao contrário do pai, se formou em administração de empresas, foi o responsável por transformar o Bompreço em uma rede de destaque no Nordeste. O mesmo aconteceu com seu tio e padrinho Mamede Paes Mendonça, aqui na Bahia.
Na Bahia nasce o império Paes Mendonça
Irrequieto como era, Mamede já não estava satisfeito em manter o seu negócio, em Aracaju. E, novamente, foi em busca de um novo desafio. Desta vez conquistar a praça de Salvador, que já conhecia de suas viagens para comprar produtos para abastecer o seu estabelecimento de secos e molhados em Aracaju. Apesar do alerta de amigos e apelo para continuar em Sergipe, Seo Mamede estava determinado, iria para a Bahia. Como estava escrito nas estrelas, a Bahia lhe deu régua e compasso para crescer e se consolidar.
Foi para a capital já com muita experiência acumulada na arte de negociar, iniciada na Feira de Ribeirópolis, e aprimorada nas etapas de Itabaiana e Aracaju. A família sempre esteve no centro dos negócios de Mamede Paes Mendonça, que, como sabemos, começara muito bem com o irmão Euclides. Casado com D. Lindaura Andrade, os cunhados sempre estiveram por perto e juntos. E assim, acompanhado dos irmãos Antônio, Manoel e João Andrade, aporta em Salvador no ano de 1951.
Para mim, que tive a honra e o orgulho de trabalhar com Seo Mamede Paes Mendonça, reputo a empatia, termo que ganhou destaque nos últimos anos, como uma das suas maiores virtudes, para mim a principal. Seo Mamede cativava quem entrasse em contato com ele. Os jornalistas, por exemplo, acompanhei vários nas entrevistas, na qualidade de assessor de imprensa, saíam sempre com uma pequena agenda e, invariavelmente, com alguns produtos que ele tinha em sua sala. As mulheres ele agradava ainda mais e elas saíam de lá com vários produtos.
A conquista de Salvador começou pela Praça Marechal Deodoro, no Comércio, onde ali instalou a sua loja de secos e molhados, ou seja, vendia uma variedade de mercadorias, produtos alimentícios, e não alimentícios. Um destes produtos era arame farpado, utilizado para fazer cercas em fazendas. Pela grande quantidade de compra e venda ele passou a ser conhecido como o “Rei do Arame Farpado”. Jaime Paes Mendonça, filho caçula, falecido em maio de 2020, disse: “Meu pai cercou com arame farpado quase todo o Nordeste. Não tinha quem não o procurasse na região, quando precisava cercar um terreno”.
Mamede Paes Mendonça sempre teve como lema vender grandes quantidades de mercadorias. E, por isso, o futuro ramo de supermercados seria o ideal para coroar a sua trajetória de comerciante. “Prefiro ganhar 5% vendendo 100, do que vender 50 ganhando 10%”. Esse era o seu lema, e com isso foi conquistando mercado, começando pela Bahia, com as lojas de supermercados Paes Mendonça e depois se espalhando pelos estados de Sergipe, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
A primeira loja no bairro da Saúde, em Salvador
Depois do sucesso alcançado como um dos mais importantes negociantes de vários produtos, no comércio localizado na Praça Marechal Deodoro, ele deu um passo definitivo para se tornar um dos pioneiros na implantação de lojas de autosserviço, ou seja supermercados, no Brasil. Ele mesmo conta que fazia viagens constantes à Argentina e Uruguai, para comprar produtos para vender aqui na Bahia. Em uma dessas viagens, exatamente para comprar alpiste, que estava em falta no mercado brasileiro, viu nesses dois países, em Buenos Aires e depois Montevidéu, uma atividade que dava os primeiros passos, em que os clientes entravam no estabelecimento, escolhiam o que queria e depois passava em um caixa para efetuar o pagamento. Tudo, sem a intermediação de um vendedor. O ano era 1959.
Astuto como era, já voltou para Salvador com a decisão tomada. Essa novidade os baianos iria conhecer. A primeira loja, já em dezembro de 1959, ainda acanhada, foi em um prédio residencial, na Rua Jogo do Carneiro, 29, entre os bairros residenciais Saúde e Nazaré, na região central da capital baiana. O sucesso foi tanto, que logo, ele teve que abrir uma outra loja. Essa segunda loja, adquirida de Raul Schwab, foi no icônico e luxuoso Edifício Oceania, que fica em frente ao Farol da Barra, foi aberta em agosto de 1960.
Assim, ele atendia a alta sociedade de Salvador, que morava nos bairros nobres, da Barra, Graça e Campo Grande, que ficava incomodada em se deslocar com os seus carrões, até à loja da Saúde, considerado um bairro menos nobre, para fazer as suas compras. Mais um acerto do sergipano, que veio para a Bahia, disposto a fazer história. A terceira foi na Rua Visconde São Lourenço, próximo ao Forte de São Pedro, onde eu trabalhei ali por seis anos, até ir para a matriz. Loja 4, Baixa dos Sapateiros, 5, no Comércio, 6, em Aracaju, e aí não parou mais.
A loja 25, no Canela, por exemplo, comemorou, na década de 70, os 25 anos da empresa em Salvador. Outra data histórica, foi a inauguração da loja 28, desta vez, já no novo polo de desenvolvimento da cidade, região do Iguatemi. Essa loja foi inaugurada no dia 23 de outubro, de 1980, data de aniversário do sobrinho e braço direito na área comercial, Pedro Barbosa de Oliveira. Era o Hiper Paes Mendonça, maior das Américas e 6ª maior do mundo. Antes disso, adquiriu, em 1976, a sua maior concorrente na Bahia: a Rede Unimar, do Grupo Corrêa Ribeiro.
Em 1984, colocava os pés em São Paulo, seu grande sonho, na Avenida Elizabeth Robiano, Penha, às margens da Marginal Tietê. Estava realizado, pois considerava São Paulo, “O Reis”, “Um país”. Resgatava uma das suas frustrações, com a não aquisição da Rede de Supermercados Sirva-se, primeira rede do país, que foi adquirida pelo Pão de Açúcar.
Depois de São Paulo foi para o Rio de Janeiro abrindo Hipers.No auge, Paes Mendonça teve 156 lojas, em 4 estados do Brasil (Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte). Seo Mamede viu seu negócio a cair, com a aquisição da falida Rede Disco de Supermercados, do Rio de Janeiro. Com alto passivo, a Rede Paes Mendonça, estava chegando ao fim.
Com certeza, essa situação abalou muito o guerreiro Mamede, que em 1994, contraiu um câncer de pulmão, vindo a falecer no dia 21 de outubro, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, aos 80 anos. O enterro foi dos mais concorridos, ocorrido no dia 23 de outubro.
Ironia do destino. Quando acompanhava Seo Mamede nas entrevistas em seu gabinete na Praça Conde dos Arcos, Nº 1, ele dizia quando perguntado pelos jornalistas, isso ainda era o início dos anos 80, e antes de abrir a primeira loja em São Paulo, “Seo Mamede, o que o senhor pretende alcançar?” E ele respondia: “Chegar a 100 lojas e viver até 80 anos”. As duas vontades se cumpriram. Um adendo, o gabinete de Seo Mamede até hoje está intacto, exatamente como ele deixou, uma homenagem do filho José Augusto Andrade Mendonça. Quem tiver curiosidade de conhecer, pode se dirigir ao prédio e solicitar uma visita.
Em 1995, no dia do seu aniversário de 80 anos, 5 de agosto, Seo Mamede estava em Salvador, para a inauguração da loja Petipreço, Vasco da Gama, de propriedade do seu sobrinho João Gualberto Vasconcelos. Aliás, João Gualberto, iniciou sua vida de supermercadista adquirindo as lojas Petipreço de Seo Mamede. Conversamos, e após ele me perguntar como eu estava, fiz a mesma pergunta de volta. “Como você está?” “Estou bem Seo Mamede!”, respondi. “E o senhor, como é que está?” Me respondeu: “Não estou bem não. Estou com uma dor nas costas que não passa”.
Já era o câncer que o acometia. Em setembro, estava eu no Rio de Janeiro, na Abras, e encontro com Borges, seu fiel escudeiro desde os tempos de Salvador, onde começou a trabalhar com ele, ainda adolescente. E Borges me disse: “Benneh, vá visitar Seo Mamede que ele não está nada bem”. No outro dia, pela manhã, me dirigi ao hospital onde ele estava internado, e lá encontrei o seu amigo de longas datas, Jessé Amorim, que saía do hospital. E Jessé me disse: “Benneh, Mamede foi transferido para São Paulo”. E assim aconteceu a minha tentativa frustrada de falar com Seo Mamede, por quem tive um carinho muito grande.
Um dos episódios que ficaram marcados em minha vida, foi quando um dia, acho que era o ano de 1986 ou 1987. Minha sala na matriz de Paes Mendonça, nesta época ficava no primeiro andar, próxima do gabinete dele. Era uma manhã, por volta das 9 horas, quando a porta da minha sala é aberta, nada mais, nada menos, por Seo Mamede.
Ele gaguejava e me cumprimentou e me perguntou: “Co… co… mo está você? Eu lhe respondi: “Estou bem Seo Mamede”. “Como o senhor foi de viagem? (ele estava chegando de São Paulo)”. Me respondeu: “Fui bem!” Indagou depois: “Por que você não está indo em minha sala?” Eu respondi: “Seo Mamede, eu vou lá quando tem necessidade, às vezes acompanhar um jornalista, ou lhe mostrar alguma coisa”. Em seguida ele me disse: “Vá lá qualquer hora. Não precisa avisar”.
Em seguida, ele como homem sempre elegante, com o seu cabelo bem penteado e bem trajado, com ternos alinhados e boas gravatas, me perguntou sobre uma gravata que estava usando: “Você gostou dessa gravata?” Respondi: “Sim, Seo Mamede, muito bonita!” Logo de imediato, para minha surpresa, entrava em minha sala, o meu querido colega Borges, com a gravata que Seo Mamede estava usando e disse: “Seo Mamede mandou lhe trazer”. Era uma legítima francesa Cristian Dior, de seda pura. Fiquei muito feliz e lisonjeado com a deferência de Seo Mamede.
Quem quiser saber mais sobre a vida de Seo Mamede, procure o livro “Mamede Paes Mendonça – O Rei dos Supermercados”, uma publicação da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, de autoria das jornalistas Ivana Braga e Heliana Frazão.
Seo Mamede, que Deus continue iluminando o seu caminho aí na eternidade. Com certeza, o senhor é um ser iluminado! (Jornalista Benneh Amorin).
