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Manuel Duran fala da paixão por café e da evolução do supermercadismo baiano

Manuel Duran, 85 anos, trilhou um caminho de sucesso que se entrelaça com a própria história do varejo baiano. Sua trajetória, marcada pelo pioneirismo com o Café América e consolidada com o Café Bahia, revela um olhar aguçado para a qualidade e uma convivência próxima com os grandes nomes do supermercadismo na Bahia, como Mamede Paes Mendonça, João Gualberto e Teobaldo.

A jornada de Duran começou com o saudoso Café América, uma marca que evoca memórias afetivas em muitos baianos. Nos anos 70, enquanto o supermercadismo ainda se consolidava, o Café América se diferenciava ao oferecer uma experiência única: o café era moído na hora da compra. Essa atenção ao detalhe e à frescura do produto conquistou uma clientela fiel e estabeleceu um padrão de qualidade que se tornou a assinatura de Duran.

Sua história profissional o colocou em contato com os maiores nomes do setor. Duran acompanhou de perto a ascensão de Mamede Paes Mendonça e sua rede Paes Mendonça, que revolucionou a forma como os baianos faziam compras ao introduzir o modelo de autosserviço. O distribuidor de café testemunhou as inovações que transformaram os antigos armazéns em modernos supermercados, um movimento que impactou profundamente toda a cadeia de abastecimento, incluindo a distribuição de produtos como o café.

Da sua convivência com Seo Mamede, Duran guarda as lembranças e ensinamentos do velho desbravador, que assim dizia ao então jovem empreendedor: “Olhe, vocês têm que me vender mais barato porque eu tenho que comprar sempre na mão dos fornecedores locais, porque quando eu compro na mão dos fornecedores locais, esse dinheiro vai para a mão do trabalhador que presta serviço a esses fornecedores. E aí ainda volta um pouquinho para a minha mão. Por isso que eu prefiro comprar nos fornecedores locais do que comprar nos fornecedores de fora da Bahia”, argumentava.

E também a forma como foi comunicado por ele de que iria fundar uma associação, o embrião da futura Abase. “Meu filho, eu quero que você me ajude porque eu aluguei uma sala aqui em um prédio no Comércio e eu quero fundar uma associação, juntar os supermercados todos, para todos pensarem do mesmo jeito. Cada um tem seu preço, cada um pratica sua margem de lucro, mas que pensem do mesmo jeito, que não maltratem o comprador. Eu aluguei essa sala e vou botar uma moça lá, a Ana Quintas. Agora tudo que vocês quiserem tratar fora de supermercado dessa associação, vocês vão tratar com Ana. Pode ir que ela vai receber vocês muito bem. E agora a ajuda que eu quero é a seguinte: Eu quero que vocês me ajudem a pagar uma parte do aluguel”, lembra, no que concordou plenamente.

“O senhor diga quanto é que a gente tem que pagar pelo lugar que estamos aqui prontos para seguir a sua orientação”, respondi. E foi assim que começou a Abase, em uma pequena sala com uma carteira e um funcionário só, Ana, que recebia as pessoas. Hoje e através dos tempos se transformou na grandeza que é a Abase, com mais de 50 anos, recorda Duran.

Novos modelos de negócio

Duran lembra ainda que as lojas que Seo Mamede construiu estão hoje servindo de base para os novos supermercados, ou seja, os antigos Hiper Iguatemi, Hiper Garibaldi e outras lojas que foram construídas nos primórdios da expansão supermercadista na Bahia estão aí servindo de base e de sede para novas redes de supermercados. “Me lembro bem que a loja do Chame-Chame, que começou com 1/3 do tamanho que é hoje e depois foi crescendo, crescendo e está esse gigante de loja ali naquele local sob a denominação de outro supermercado que já tomou conta”, diz.

Ele também menciona a chegada de novos modelos de negócio e o surgimento de novas potências, a exemplo de João Gualberto, que começou com as lojas Peti Preço, enveredou pela carreira política e construiu a potência que hoje é o Hiperideal, e de Teobaldo, que começou com uma pequena padaria, fundou a pioneira loja do Atakarejo em Brotas e hoje pilota uma rede de mais de 35 lojas em várias cidades da Bahia e do Nordeste.

“João Gualberto hoje é um empresário de sucesso no ramo de supermercados e em qualquer coisa que ele entrar vai ser sucesso, porque é uma pessoa muito trabalhadora, que transferiu isso tudo para a filha, que assimilou muito bem, e hoje é a presidente da Abase, Amanda Vasconcelos. Amanda trouxe do pai todos os valores morais e empresariais que poderiam ser transmitidos de um pai para uma filha. E hoje está aí como a primeira mulher a ser presidente de uma associação de supermercados do Brasil”, destacou.

A convivência com esses empreendedores proporcionou a Duran uma perspectiva privilegiada sobre as transformações do mercado, a importância da eficiência logística e a necessidade de inovação constante. Não é por acaso que, ao longo de sua carreira, Manuel Duran sempre enfatizou a importância da qualidade, uma filosofia que o acompanhou na transição do Café América para o Café Bahia. A marca, que carrega em seu nome a essência do estado, é um reflexo do seu compromisso com o produto e com a satisfação do cliente. Para ele, o sucesso no ramo do café não está apenas na distribuição, mas na paixão e no respeito pelo processo, desde o grão até a xícara.

Seu conselho para quem almeja entrar no mercado de café é direto e prático: “Trabalhe direito e procure uma marca de café de qualidade”. Para Duran, não há segredos ou atalhos para o sucesso. A dedicação, a integridade e a oferta de um produto superior são os pilares que sustentam uma marca no longo prazo.

A trajetória de Manuel Duran é um lembrete de que a paixão e a dedicação são os melhores combustíveis para um negócio próspero. Do moído na hora do Café América à consolidada marca Café Bahia, ele deixou sua marca no mercado baiano, ensinando que, mesmo em um setor em constante evolução, a qualidade e o trabalho bem feito sempre terão um lugar de destaque. Sua história é um tributo à capacidade de crescer e se adaptar, mantendo a tradição e a excelência que conquistaram o paladar de gerações.